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terça-feira, 21 de abril de 2026

O império empresarial bilionário da elite secreta de Cuba

Imagem: reprodução


Enquanto Cuba enfrenta a escassez e os apagões, um conglomerado empresarial vinculado às Forças Armadas do país administra secretamente bilhões de dólares.

A Gaesa (Grupo de Administración Empresarial S. A.) não tem website, nem endereço de correio eletrônico institucional conhecido, nem canais oficiais de contato. Ela não publica balanços, nem aparece no orçamento estatal.

A Assembleia Nacional do Poder Popular e a Controladoria Geral da República de Cuba não podem auditar suas contas — mesmo com a empresa embolsando praticamente cada dólar recebido pelos negócios mais rentáveis do regime cubano: turismo, remessas financeiras, comércio exterior e missões médicas no estrangeiro.

A holding pertence às Forças Armadas Revolucionárias de Cuba (FAR), mas também não está sob seu controle.

Em 2024, ela possuía bens no valor de pelo menos US$ 17,9 bilhões (cerca de R$ 89,4 bilhões), incluindo mais de US$ 14,4 bilhões (cerca de R$ 71,9 bilhões) em contas bancárias, segundo documentos vazados para o jornal americano Miami Herald.

A BBC não conseguiu verificar estes dados de forma independente.

Esta fortuna é maior que as reservas internacionais de países como o Equador, o Paraguai ou a República Dominicana. Ela ilustra a magnitude do império econômico representado pela Gaesa.

Tudo isso contrasta com a situação econômica de Cuba, um país praticamente falido, com queda acumulada de 15% do PIB nos últimos cinco anos e insolvente frente aos seus diversos credores internacionais.

Quase nove a cada 10 cubanos vivem em condições de extrema pobreza ou "sobrevivência", segundo estimou em 2025 o Observatório Cubano dos Direitos Humanos. E, neste ano, a crise no país se intensificou com apagões de várias horas por dia e com a escassez ainda maior de alimentos, combustíveis e medicamentos.


A miséria nas ruas de Havana contrasta com os modernos hotéis financiados
pelas corporações da Gaesa, como a Torre K — Iberostar Selection Havana (esq.),
inaugurada em 2025 - Imagem: reprodução

Nos últimos meses, o governo do presidente americano Donald Trump intensificou as sanções contra a ilha, com um bloqueio de facto do fornecimento de petróleo, que agravou os problemas de energia e abastecimento.

O contraste entre um Estado em bancarrota e a existência de uma entidade obscura que suga as principais fontes de receita sob o guarda-chuva militar levanta questões importantes que tentaremos responder a seguir.

Como opera a Gaesa? Quem está por trás dela? Onde ela guarda e investe o dinheiro?

Até que ponto esta economia paralela é responsável pela miséria que assola Cuba?

A BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) tentou entrar em contato com o governo cubano por diversas vias, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Qual é a sua origem e como ela opera

"A Gaesa funciona como uma grande holding, um polvo de vários braços que se apropriou da economia cubana em quase todos os seus setores rentáveis ao longo dos últimos 15 anos", explica Emilio Morales, presidente da consultoria Havana Consulting Group, que estuda a economia cubana.

Mas a Gaesa nasceu muito antes, na década de 1990. Ela era um mecanismo criado dentro das FAR para administrar empresas que operavam com divisas em plena crise econômica (o chamado Período Especial), após a queda da União Soviética (1922-1991).

Seu objetivo inicial era relativamente limitado: gerar recursos para as próprias Forças Armadas por meio de negócios vinculados ao turismo, comércio exterior e outros setores que captavam dólares.

Mas, com o passar do tempo, essa estrutura se transformou em um império financeiro.

A deterioração da saúde de Fidel Castro (1926-2016), até então líder hegemônico de Cuba, levou à ascensão ao poder do seu irmão Raúl, interinamente em 2006 e formalmente em 2008.

Desde então, o conglomerado começou a se expandir rapidamente e absorver empresas estatais estratégicas, entre elas a maior de todas: a Cimex.

"Ao se apropriar da Cimex, a Gaesa adquiriu toda a sua rede de empresas, dentro e fora de Cuba: corporações localizadas em paraísos fiscais como o Panamá, comércios varejistas em moeda local e em dólares, postos de gasolina, negócios imobiliários, exportação, importação, atacadistas...", explica Morales.


Durante anos, as remessas de dinheiro enviadas do exterior para Cuba através
da americana Western Union foram canalizadas pela empresa Fincimex, controlada
pela Gaesa (na foto, a sucursal da Western Union em Havana) - Imagem: reprodução


A holding foi englobando outras empresas rentáveis, como as especializadas no setor turístico Gaviota e Habaguanex, parte da operadora de internet Etecsa e a gestão do porto comercial de Mariel, o maior do país.

A Gaesa assumiu também o controle do Banco Financeiro Internacional (BFI), que opera as transações de Cuba com o exterior.

Na prática, a holding monopolizou quase todos os negócios que atraem dólares: o turismo, comércio, telecomunicações, bancos, remessas financeiras, logística e construção.

No papel, Cuba funciona em um sistema socialista, no qual a economia é monopólio do Estado. Mas a Gaesa não presta contas à Assembleia Nacional e mantém seus balanços em sigilo.

"Seus balanços são secretos, a imprensa cubana não a menciona e ela trabalha em total obscuridade", explica à BBC o economista Pavel Vidal, um dos maiores especialistas nas finanças de Cuba.

"E, na verdade, também não paga impostos e não aparece nos orçamentos do Estado, já que tem um orçamento independente. É uma economia dentro de outra", define ele.

O sigilo em torno deste império na sombra é enorme.

Em julho de 2024, a então controladora-geral de Cuba, Gladys Bejerano, foi exonerada após 14 anos no cargo. Ela havia admitido, em um aparente descuido durante uma entrevista à agência de notícias EFE, que o Estado não teria jurisdição para auditar a Gaesa.

Três anos antes, em 2021, o então ministro das Forças Armadas de Cuba, Leopoldo Cintra Frías, foi suspenso, segundo fontes, pouco depois de tentar promover uma investigação interna sobre a holding multimilionária ligada à sua pasta.

Não se sabe ao certo, em nenhum dos dois casos, se as destituições foram relacionadas às suas incursões nos assuntos da Gaesa ou se foram meras coincidências. Bejerano e Cintra Frías eram septuagenários quando foram afastados dos seus respectivos cargos.


O general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, ex-genro de Raúl Castro,
era considerado o cérebro e promotor da Gaesa até sua morte, em 2022
 - Imagem: reprodução

O grupo empresarial foi presidido por anos pelo general Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960-2022), ex-genro de Raúl Castro e considerado um dos homens mais poderosos do país.

Foi sob seu comando que a Gaesa assumiu o controle das principais empresas estatais, até se tornar a gigante que é hoje em dia.

Após a morte de Rodríguez López-Calleja, em 2022, a presidência do grupo passou para a sua vice, a generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres.

Estes são os dois únicos nomes conhecidos deste conglomerado empresarial multimilionário. Mas quem forma a elite que controla a Gaesa e seus bens?

Quem são seus donos

Identificar os proprietários e diretores da Gaesa não é uma tarefa fácil.

Sua estrutura empresarial é extremamente obscura. Não se sabe quem lidera seus órgãos de decisão, não há um organograma oficial e boa parte das suas empresas operam por meio de redes societárias de difícil rastreamento.

Mas investigações jornalísticas, documentos vazados e relatórios de acadêmicos que passaram anos estudando o grupo oferecem importantes indícios sobre a elite deste poderoso conglomerado.

Segundo Emilio Morales, o poder é concentrado em um grupo seleto e reduzido. "Não ultrapassa 15 pessoas", revela ele.

"Não são nomes públicos, são muito herméticos. Eles têm designado a cada empresa um profissional de informática, um contador e um oficial da contrainteligência, para supervisionar toda a parte contábil", prossegue Morales, mencionando o testemunho anônimo de um ex-funcionário da Gaesa.

Ele afirma que a holding usa o aparato militar para garantir que o controle das suas empresas e operações permaneça sem ser questionado, mas quem realmente manda não são os generais das Forças Armadas.

"Na Venezuela, havia muitos arquipélagos de poder", compara ele.

"Diosdado [Cabello, ex-presidente da Assembleia Nacional] tinha o dele, [Vladimir] Padrino [ex-ministro da Defesa] o seu, [Nicolás] Maduro, Delcy [Rodríguez, atual presidente] etc."

"Mas o caso de Cuba é diferente. Raúl Castro nunca quis que os generais tivessem poder financeiro. Os generais existem para controle político."

Neste sentido, o presidente da plataforma acadêmica Cuba Século 21, Juan Antonio Blanco, explica à BBC News Mundo que Raúl Castro sempre tentou "evitar que os generais se corrompessem, tendo acesso a grandes valores em dinheiro".

Por isso, "a Gaesa foi reservada para um grupinho de elite da família Castro e os mais próximos", garante ele. "Existe um ou outro general, sim, mas não porque sejam generais, mas porque eram incondicionais, historicamente próximos da família de Raúl Castro."

Assim, a elite do colosso empresarial (ou parte dela) seria o entorno familiar e militar do general Raúl Castro, hoje com 94 anos. Oficialmente aposentado, ele continua sendo o homem mais poderoso de Cuba, segundo os analistas.


O ex-presidente cubano Raúl Castro, com seu neto e guarda-costas Raúl
Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como o 'Caranguejo', que alguns
especialistas relacionam à Gaesa - Imagem: reprodução


Raúl Castro tem quatro filhos: Déborah, Mariela, Nilsa e Alejandro Castro Espín. E também vários genros, netos e parentes próximos, que são vinculados a negócios e instituições importantes do poder.

Entre eles, estão seu influente ex-genro Luis Alberto Rodríguez López-Calleja, morto em 2022, e o seu neto e guarda-costas Raúl Guillermo Rodríguez Castro, conhecido como o "Caranguejo".

Rodríguez López-Calleja foi o artífice da grande transformação da Gaesa, antes uma limitada rede de empresas militares, em um gigantesco conglomerado que controla praticamente todas as atividades rentáveis do país.

Já em relação ao "Caranguejo", suas frequentes viagens ao Panamá na última década (foram mais de 20 entre 2024 e 2025, segundo fontes, muitas delas em aviões particulares) levaram muitas pessoas a associá-lo diretamente aos negócios milionários da holding.

Os especialistas também acreditam que o papel da atual presidente-executiva da Gaesa, Ania Guillermina Lastres, é principalmente operacional: ela representa e supervisiona a empresa, mas não faz parte do seu núcleo de proprietários, com poder de decisão e acesso aos seus fundos multimilionários.

O nome de Lastres é o único que se dá a conhecer neste emaranhado, já que não existe um organograma oficial.


A generala-de-brigada Ania Guillermina Lastres é a atual presidente da
Gaesa, mas os especialistas colocam em dúvida seu real poder sobre
a holding - Imagem: reprodução


Perguntar sobre o lado interno da Gaesa é como encontrar um muro pela frente. Muitas das suas empresas são estruturadas em redes de companhias e filiais, que ocultam os verdadeiros donos dos negócios.

"Os acionistas de uma empresa podem ser outra empresa; e, desta, uma outra empresa — uma cadeia de companhias, para que não se consiga realmente chegar ao verdadeiro dono", segundo Morales. "E, no fim, você encontra um nome que é colocado ali como testa de ferro."

Este tipo de estrutura é frequente em paraísos fiscais ou jurisdições com baixa transparência corporativa. Ela também dificulta seguir o rastro do dinheiro.

Daqui, surge outra pergunta importante: onde está e qual é o destino do dinheiro da Gaesa?

Onde está o dinheiro

O conglomerado passou mais de duas décadas ampliando sua presença em setores fundamentais do país, sem que ninguém conseguisse avaliar a magnitude do seu império econômico.

A Gaesa mantém suas contas em segredo e opera fora do escrutínio público. Mas o vazamento de documentos internos publicado no ano passado pelo Miami Herald trouxe um facho de luz, ao fornecer números específicos pela primeira vez.


Os documentos revelados pelo jornal americano Miami Herald mostram números multimilionários, em ativos, vendas e receita - Imagem: reprodução


Os documentos publicados pelo Miami Herald são compostos por 22 balanços financeiros internos, correspondentes a diferentes empresas do grupo.

Segundo eles, em março de 2024 o conglomerado controlava ativos avaliados em pelo menos US$ 17,894 bilhões (cerca de R$ 89,3 bilhões), incluindo US$ 14,467 bilhões (cerca de R$ 72,2 bilhões) líquidos em contas bancárias.

Estes números não incluem a Cimex, que é a maior empresa da holding. Por isso, acredita-se que a fortuna da Gaesa, pelo menos naquele momento, fosse ainda maior.

Os documentos também revelaram uma rentabilidade surpreendente. Foram mais de US$ 2,1 bilhões (cerca de R$ 10,5 bilhões) de lucros em agosto de 2024 em US$ 5,563 bilhões (cerca de R$ 27,8 bilhões) de receita, o que representa uma margem de cerca de 38%.

Em termos de comparação, as grandes empresas internacionais costumam registrar margens de lucro de 5% a 15%. Nem mesmo em setores muito lucrativos, é frequente que elas superem 20%.

Especialistas indicam que isso se deve a vários fatores.

Em primeiro lugar, a Gaesa explora todos os setores rentáveis da economia cubana que geram dólares, como o turismo e o comércio, mas não os deficitários, como a agricultura, educação e saúde pública, exceto pelas missões médicas.

Em segundo lugar, como Cuba restringe a entrada de outras corporações nesses setores, ela trabalha sem enfrentar concorrência.

Por fim, outro ponto importante é que a empresa se beneficia da dualidade de taxas de câmbio e de moedas. "Sua receita é principalmente em dólares, em divisas, e ela paga salários em pesos cubanos", explica Vidal.


Praticamente todas as empresas de transporte e serviços turísticos pertencem,
em última análise, à Gaesa, como a Transtur (da companhia Cubasol) e a
Transgaviota (grupo Gaviota) - Imagem: reprodução


O acadêmico José Antonio Blanco destaca ainda a vantagem de contar com o guarda-chuva das Forças Armadas Revolucionárias.

"Se a Gaesa construir um hotel, por exemplo, como empresa das FAR, ela adquire mão de obra e materiais do Ministério da Construção em pesos cubanos, mas o dinheiro gerado pelo hotel entra em dólares", explica ele.

A diferença entre as duas moedas é enorme.

Seis anos atrás, um dólar valia 24 pesos cubanos, mas a moeda local se desvalorizou drasticamente desde então. Hoje, no mercado informal, a cotação do dólar já supera largamente os 500 pesos, segundo dados do portal de referência El Toque.

Outra grande incógnita é onde está o patrimônio da Gaesa.

Os documentos vazados indicam que o conglomerado mantém parte dos seus lucros multimilionários no próprio sistema financeiro, o que dificulta o rastreio até o seu destino.

Segundo Pavel Vidal, o grupo também gerencia recursos que, na prática, funcionam como reservas internacionais paralelas do país, embora não estejam sob o controle do Banco Central de Cuba.

"Trabalhei no Banco Central e sei que a instituição não gerencia diretamente as reservas internacionais de Cuba, mas sim o Banco Financeiro Internacional (BFI), que pertence à Gaesa."

"Por isso, é preciso entender que essas reservas estão nesses US$ 14,5 bilhões [cerca de R$ 72,4 bilhões]", explica ele.

"Chamo de reservas internacionais para dar um nome, mas, na verdade, não deveriam ser chamadas assim. Elas não estão sob o controle da autoridade monetária, que é quem deveria respaldar a moeda, o sistema bancário e a dívida", destaca Vidal.


O aluguel de veículos para turistas está concentrado em empresas estatais,
como a Cubacar e a Havanautos, também vinculadas ao conglomerado militar
Gaesa - Imagem: reprodução


Sobre o paradeiro dessas reservas, Vidal calcula que "provavelmente elas estejam diversificadas: uma parte no BFI, mas também em bancos internacionais (russos, chineses,...) e, provavelmente, em paraísos fiscais".

"Não há informações precisas a respeito, mas, considerando que parte da lógica da Gaesa é evitar sanções, é razoável imaginar que essas reservas sejam bastante diversificadas e que uma parte esteja estruturada de forma a não ficar exposta a sanções", conclui ele.

É preciso destacar que os únicos relatórios financeiros da holding que foram publicados datam de 2024. Por isso, não se sabe que valores atingem seus ativos atualmente.

Por fim, a última pergunta: qual a possível responsabilidade da Gaesa pela desastrosa situação atual da economia cubana?

A influência na crise cubana

O peso do conglomerado na economia cubana é enorme.

Cálculos de Pavel Vidal e outros especialistas indicam que suas transações podem representar o astronômico nível de 40% do PIB do país.

Este poder financeiro permitiu à Gaesa manter uma estratégia de investimentos que, segundo seus críticos, seria totalmente desconectada das necessidades mais urgentes da população da ilha.

Enquanto a economia cubana atravessa décadas de crises, com setores produtivos disfuncionais e infraestruturas deterioradas, a Gaesa concentrou grande parte dos seus recursos em atividades destinadas a captar divisas, em vez de, por exemplo, revitalizar a produção agrícola e industrial do país.

Nos últimos anos, o conglomerado promoveu uma ambiciosa expansão dos negócios turísticos, especialmente na capital, Havana, onde foram construídos novos e imponentes hotéis. Os edifícios contrastam com a deterioração cada vez maior das ruas e das construções ao seu redor.

Enquanto isso, cada vez menos turistas visitam a ilha. O número de visitantes desabou de um pico de 4,7 milhões, em 2018, para 1,8 milhão no ano passado, quando a escassez e os apagões já se encaminhavam para os níveis extremos vividos hoje em dia.


O hotel Grand Aston Havana, inaugurado em 2022, com cerca de 600 apartamentos,
no bairro do Vedado, no centro da capital. Ele pertence ao grupo Gaviota, que
faz parte da Gaesa - Imagem: reprodução


Para Vidal, concentrar os recursos no setor turístico faz com que outras áreas estratégicas recebam menos investimentos, o que limita a capacidade do país de reativar setores produtivos que reduzam a escassez crônica de alimentos e modernizar a indústria de geração de eletricidade, que é cada vez mais disfuncional.

"O investimento no turismo foi fortemente desproporcional e se descuidou dos investimentos na agricultura, na rede elétrica e na manutenção das instalações geradoras", segundo o economista. "Isso explica, em parte, o que está acontecendo agora.

Outro exemplo do controle da Gaesa sobre as principais fontes de receita do país são as missões médicas internacionais. Elas são o negócio mais lucrativo de Cuba nos últimos anos, mais até do que o turismo.

Parte desta receita, segundo os especialistas consultados pela BBC, é canalizada para empresas do conglomerado empresarial militar. E, com base neste sistema peculiar, a Gaesa absorve boa parte das divisas que entram no país.

Some-se a isso o fato de que a Gaesa possui ativos (ou pelo menos detinha, em 2024) em volume que permitiria modernizar o setor agropecuário (que hoje produz apenas 20% do consumo nacional de alimentos) e restaurar o setor de geração de eletricidade da ilha.

As pressões recentes do governo americano sobre Cuba, que enfrenta uma situação limite, levaram muitos a pensar que o regime comunista vigente desde 1959 poderá cair ou protagonizar uma mudança drástica e forçada.

Se isso acontecer, é difícil prever o que ocorreria com o obscuro conglomerado econômico das Forças Armadas, construído durante as últimas três décadas em paralelo ao Estado cubano.

"Se houver uma transição, imagino que uma das primeiras medidas será encontrar o dinheiro da Gaesa, pois ele será muito necessário para uma fase de estabilização, de reconstrução", prevê Emilio Morales.

Fonte: BBC Brasil


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sábado, 4 de outubro de 2025

Intoxicação por metanol: por dentro do mercado clandestino de lacres falsos, tampas e garrafas de bebidas alcoólicas

Imagem: reprodução

Rótulos e tampas de bebidas famosas, selos apresentados como se fossem da Receita Federal e garrafas de marcas de gin, vodka e whisky circulam livremente em grupos de Facebook, abertos ou fechados, dedicados à compra e venda desses itens, segundo apurou a BBC News Brasil.

Os anúncios prometem entrega para "todo o Brasil" e venda em grande escala, de mihares de produtos. Entre os interessados estão perfis com nomes e logotipos de adegas de diferentes estados do país. Em apenas um desses grupos há mais de 10 mil participantes, além de outros menores e com acesso restrito.

Um vendedor com DDD do Rio de Janeiro, por exemplo, oferece garrafas de um whisky de marca internacional por R$ 5 a R$ 10 a unidade, a depender da quantidade comprada. O valor é praticamente dez vezes o que se conseguiria em uma empresa de reciclagem, por exemplo.

Em conversa por WhatsApp com a BBC, um vendedor de selos diz que o produto sai a R$ 1,30 por selo, e ofereceu um pacote com 1 mil unidades. Ele não confirmou a origem do material e não quis fornecer mais detalhes.

Nos últimos dias, autoridades brasileiras advertiram sobre um número atípico de casos de pessoas intoxicadas por metanol devido ao consumo de bebidas alcoólicas contaminadas com a substância — que pode provocar mortes e danos irreversíveis, como cegueira.

Existe a suspeita de que bebidas possam ter sido adulteradas com metanol, já que muitos dos casos relatados são de pessoas que beberam em bares. As autoridades também trabalham com a hipótese de algum problema de contaminação no envase de garrafas.

Em um dos grupos vistos pela BBC, um perfil de uma adega no interior do Mato Grosso do Sul diz procurar lacres e tampas de uma famosa marca de whisky — e, na mesma publicação, aparecem outros compradores interessados.

Também são anunciadas garrafas descritas como "zero", além de caixas, tampas e adesivos. Os vendedores chegam a publicar vídeos para demonstrar a suposta qualidade dos produtos e oferecem envio pelos Correios.

Na prática, esses grupos funcionam como uma feira livre virtual: vendedores e compradores expõem seus números de WhatsApp, com DDDs de vários estados.

Em alguns casos, há moderação e é preciso pedir autorização para entrar. Em outros, o acesso é totalmente aberto.

A venda de garrafas, em si, não é um crime, mas diversos especialistas alertam que é uma prática comum no mercado paralelo de falsificação de bebidas alcoólicas.

Vendedores contatados pela reportagem dizem não saber qual é o destino das garrafas. Entre os anunciantes há também empresas de reciclagem e até pessoas que se apresentam como colecionadores.

A BBC News Brasil procurou a Meta, responsável pelo Facebook, mas ainda não houve um posicionamento sobre o caso.


Perfil ligado a uma adega anuncia compra de lacres de whisky no Facebook
- Imagem: reprodução

'Quem vende sabe que o objetivo é o descaminho'

Um relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontou que o mercado ilegal das bebidas alcoólicas movimentou R$ 56,9 bilhões no Brasil, aumento de 224% em relação a 2017.

O modus operandi da falsificação passa pela reutilização de garrafas de marcas legítimas, segundo a entidade. De acordo com o Fórum, é comum na falsificação a prática do refil, com a reutilização dos vasilhames para envasamento das bebidas adulteradas. Só em 2023 foram apreendidas 1,3 milhão de garrafas de bebidas.

Uma ação recente da Polícia Civil em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, encontrou um depósito em que estavam sendo higienizadas ao menos 20 mil garrafas.

Para Lucien Belmonte, presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Vidro (Abividro), a falta de fiscalização faz com que o crime compense nesse setor.

Ele diz que o correto seria que estabelecimentos que vendem bebidas alcoólicas destinem as garrafas para contêineres de reciclagem ou contratem um serviço de coleta.

"Já vi garrafas com tampa sendo vendidas a R$ 450. Obviamente isso não é para fazer abajur, mas para encaminhar para falsificação", diz. "Quem vende sabe que o objetivo é o descaminho, que é para esquema de falsificação."

Ele destacou um projeto de lei, colocado no regime de urgência pela Câmara dos Deputados, que classifica como crime hediondo a adulteração de alimentos, incluindo bebidas, e avalia que esse comércio das garrafas com o objetivo de falsificação também deveria ser punido.

"Hoje não há um crime específico. É preciso ter uma interpretação alargada da lei para tipificar."

Como é o controle das bebidas destiladas?

O controle de destilados importados, como gin ou vodka, é feito pela utilização de selos, que são impressos pela Casa da Moeda e aplicados nas tampas das garrafas. O selo autêntico tem uma holografia que mostra as letras R, F ou B.

Segundo a Receita Federal, o selo está relacionado a aspectos tributários, sem preocupação específica com o conteúdo das garrafas ou composição do produto.

Já a autorização de entrada no país de bebidas importadas cabe ao Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), que é responsável por verificar e autorizar previamente a importação desses produtos e avaliar identidade, qualidade e segurança.

Entidades reclamam da suspensão de um sistema de rastreamento de bebidas, o Sicobe, que tinha sido implementado em 2008, mas foi desativado em 2016 sob alegação de altos custos de manutenção (cerca de R$ 1,4 bilhão ao ano). Houve uma determinação do Tribunal de Contas da União (TCU) no ano passado para religá-lo, mas o caso foi judicializado e está pendente de uma decisão no Supremo Tribunal Federal.

Um estudo feito em 2023 e assinado por dois economistas da Fia Consultoria explica como funcionava o Sicobe: sensores instalados na linha de produção registravam a quantidade de bebidas engarrafadas em lata ou em garrafas. Os dados eram então encaminhados à Receita Federal, sem depender de notificações voluntárias das produtoras de bebidas.

"O sistema reduz fraudes e evita subnotificação da produção", diz o estudo.

Esse sistema, no entanto, fazia o monitoramento de cervejas e refrigerantes, não dos destilados, segundo nota divulgada pela Receita Federal.

Ainda assim, especialistas avaliam que algum tipo de rastreamento precisa ocorrer para coibir a falsificação, mesmo que por meio de outro sistema.

"Um comerciante mal-intencionado pode comprar a bebida original, vendê-la e depois, ao invés de mandar o vasilhame pra reciclagem, vender pra esse mercado paralelo, por um valor mais caro", diz Sérgio Pereira da Silva, que é vice-presidente da Associação Brasileira de Combate à Falsificação.

SIlva avalia que é necessário que haja algum tipo de rastreabilidade dos produtos e que só os selos não dão conta do problema.

"Hoje você encontra facilmente selos falsificados pra comprar. A mesma gráfica que falsifica o rótulo também falsifica o selo."

Para o delegado aposentado da Polícia Federal e consultor em compliance e segurança, Jorge Pontes, falta controle da produção de bebida no Brasil.

"Antes o controle era muito melhor. Tem que ter algum tipo de controle estatal. Não dá pra deixar só na mão de particulares, pois cria-se um ambiente propício para a criminalidade", diz.

"Hoje o chamado 'follow the product' [siga o produto] é tão importante quanto o 'follow the money' [siga o dinheiro] em investigações. O poder público precisa saber o que está sendo produzido, quanto está sendo produzido."

O pesquisador-sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) Nívio Nascimento, que participou de um estudo da entidade que cita o contrabando de bebidas alcoólicas, ressalta que esse tipo de crime sempre existiu, mas a novidade percebida nos últimos anos é a inserção e o interesse cada vez maior do crime organizado.

"Muitas vezes associamos facções ao comércio de cocaína, maconha e outros ilícitos. Mas hoje o cenário é de diversificar a atuação. Houve uma infiltração robusta do crime organizado em diversos setores da economia, como o da bebida."

Ainda não há evidências, vale lembrar, de que os casos de contaminação em São Paulo estejam ligados a facções.

"Nesse momento há pouca informação disponível para concluir se há participação do PCC. É preciso esperar investigações para entender o que aconteceu", disse.

Fonte: BBC Brasil


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sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Como PCC usa a Faria Lima para lucrar bilhões, segundo investigações da Receita e a PF

Foto de dinheiro apreendido durante megaoperação da Polícia Federal e
outros órgãos - Imagem: reprodução

A Polícia Federal, a Receita Federal e órgãos como o Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagraram na quinta-feira (28/8) três operações contra um esquema supostamente utilizado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC).

Segundo as autoridades, o esquema utilizava fundos de investimentos e empresas financeiras que operam na avenida Faria Lima (principal centro financeiro de São Paulo) para gerar, lavar, ocultar e blindar recursos da atuação da facção no tráfico de drogas e no setor de combustíveis.

De acordo com reportagem do portal G1, ao menos 42 endereços alvos da megaoperação ficam na Faria Lima.

O PCC é considerado uma das maiores organizações criminosas do Brasil com atuação tanto no tráfico de drogas doméstico e internacional quanto no setor de combustíveis.

Ao todo, a estimativa da PF é de que o esquema investigado tenha movimentado pelo menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

Foram expedidos 14 mandados de prisão, mas até o início da tarde, apenas seis pessoas haviam sido presas.

Em suas redes sociais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que a operação foi a "maior resposta do Estado brasileiro ao crime organizado de nossa história".

O ministro da Justiça e da Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, também disse que as três operações, em conjunto, seriam a maior investida das autoridades brasileiras contra o crime organizado até hoje.

O governo federal realizou uma entrevista coletiva nesta quinta sobre a operação. Nela, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que a ação foi "exemplar" pois conseguiu "chegar na cobertura do sistema, no andar de cima do sistema".

Haddad também afirmou que o monitoramento de fintechs (empresas de tecnologia que oferecem serviços financeiros) será ampliado.

"As fintechs, a partir de amanhã, terão de cumprir rigorosamente as mesmas obrigações que os grandes bancos. Porque com isso aumenta o potencial de fiscalização da Receita", afirmou à imprensa na saída da entrevista coletiva.

Para a subsecretária da Receita Federal, Andrea Costa Chaves, as investigações revelaram o grau de infiltração do crime organizado na sociedade brasileira.

"Percebemos uma invasão do crime organizado na economia real e no mercado financeiro", disse Chaves durante a entrevista coletiva.

As três operações se chamam Carbono Oculto, Quasar e Tank.

A primeira foi realizada pelo MPSP em parceria com a PF e com a Receita Federal. As duas últimas foram realizadas pela PF e pela Receita Federal.

De acordo com as autoridades, o principal esquema, investigado pela Operação Carbono Oculto, funcionava em quatro etapas.

Na primeira, importadoras de combustíveis financiadas com recursos da facção compravam remessas de combustíveis no exterior.

O produto então era distribuído a redes de postos controladas pelo PCC em diversos Estados. Estes postos, por sua vez, sonegavam impostos da venda desses produtos ao consumidor final.

A Receita Federal estima que o esquema tenha gerado uma perda de receita de aproximadamente R$ 8,67 bilhões.

De acordo com o MPSP, o esquema também envolvia a adulteração de combustíveis vendidos ao consumidor final, especialmente gasolina.

Na segunda fase, a facção também usava os postos e outros estabelecimentos comerciais para lavar dinheiro do tráfico de drogas. Também haveria indícios de que a facção usava lojas de conveniência e padarias para "esquentar" o dinheiro ilegal.

O PCC teria usado uma rede de aproximadamente mil postos de gasolina distribuídos em 10 Estados: São Paulo, Bahia, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Maranhão, Piauí, Rio de Janeiro e Tocantins.

De acordo com as investigações, o papel dos postos e de outros estabelecimentos vinculados ao esquema era receber dinheiro em espécie ou por meio de máquinas

O recebimento de dinheiro em espécie, segundo os investigadores, dificulta o rastreio da origem exata dos recursos.

A terceira fase era a da ocultação dos recursos ilícitos gerados pela facção. É nesta fase que entraram em cena, segundo a PF, fintechs.

Uma delas, o BK Bank, é apontada em um documento da investigação ao qual a BBC News Brasil teve acesso como um "buraco negro" financeiro, uma vez que a instituição receberia recursos dos estabelecimentos controlados pelo PCC e os misturaria com dinheiro de outros clientes, tornando o rastreio mais difícil.

Essa "mistura" se daria por meio de um mecanismo chamado "conta bolsão", em que a fintech deposita todos os recursos de seus clientes numa única conta.

A BBC News Brasil enviou questionamentos à BK Bank, mas não recebeu resposta.

De acordo com o jornal Valor Econômico, a empresa divulgou uma nota sobre o assunto.

"A instituição de pagamentos é devidamente autorizada, regulada e fiscalizada pelo Banco Central do Brasil e conduz todas as suas atividades com total transparência, observando rigorosos padrões de compliance", diz a nota.

"A fintech era usada ainda para efetuar pagamentos de colaboradores e de gastos e investimentos pessoais dos principais operadores do esquema", diz uma nota da Receita Federal sobre a operação.


Viatura da Polícia Federal em frente a um prédio localizado na Avenida Faria Lima
durante operação contra a PCC - Imagem: reprodução

Blindagem

A suposta participação de fundos de investimento sediados nas imediações da Faria Lima faz parte, segundo as investigações, da quarta etapa do esquema: a blindagem do patrimônio do PCC contra eventuais investigações.

Um dos alvos da operação foi a gestora de fundos Reag Investimentos.

Segundo o site da empresa, ela é responsável pela gestão de um patrimônio de R$ 299 bilhões.

Em nota, a Reag Investimentos disse estar colaborando com as investigações.

"Trata-se de procedimento investigativo em curso. As Companhias esclarecem que estão colaborando integralmente com as autoridades competentes, fornecendo as informações e documentos solicitados, e permanecerão à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais que se fizerem necessários", afirmou a empresa.

A blindagem patrimonial ocorreria por meio do investimento em fundos oficialmente controlados por gestoras situadas no coração financeiro de São Paulo.

De acordo com os investigadores, a facção teria usado 40 fundos de investimentos com um patrimônio de R$ 30 bilhões ligados ao esquema.

Mas esses fundos seriam controlados, na verdade, pela organização criminosa.

Eles receberiam aportes de dinheiro "lavado" para fazer aquisição de bens e empresas usados pelo esquema.

A Receita Federal diz ter identificado que os fundos controlados pelo PCC foram responsáveis pela compra de 1,6 mil caminhões para transporte de combustíveis, um terminal portuário, quatro usinas de álcool, 100 imóveis — entre eles, seis fazendas no interior de São Paulo — e uma mansão em Trancoso, no litoral da Bahia.

Ainda de acordo com a Receita Federal, os administradores dos fundos estariam cientes da vinculação com o PCC e teriam contribuído para o esquema.

Após a publicação original desta reportagem, a Reag enviou esclarecimentos adicionais à BBC News Brasil.

"Sobre os fatos objeto de apuração, [a Reag] esclarece que diversos Fundos de Investimentos mencionados na Operação nunca estiveram sob sua administração ou gestão."

"Quanto aos Fundos de Investimento apurados em que a empresa atuou como prestadora de serviço, informa que agiu de forma regular e diligente. Cumpre registrar que tais fundos foram, há meses, objeto de renúncia ou liquidação."

"Reforça, ainda, que não possui nem nunca possuiu qualquer envolvimento com as atividades econômicas ou empresariais conduzidas por esses clientes."

Brechas e fake news

Andrea Costa Chaves, da Receita Federal, disse que o esquema usado pelo PCC usou uma brecha legal sobre o funcionamento de fintechs que foi alvo de críticas da oposição no início do ano, durante a chamada "crise do Pix".

Uma série de vídeos, entre eles um divulgado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), levantaram suspeitas sobre uma instrução normativa da Receita que aumentava a fiscalização de operações realizadas por fintechs.

Nesses vídeos, uma das críticas era a de que a mudança nas regras teria o objetivo de aumentar o monitoramento da Receita sobre os gastos de cidadãos e aumentar a arrecadação.

O governo, na época, tentou se defender afirmando que o objetivo era combater crimes financeiros, mas acabou recuado em meio à pressão da opinião pública e revogou as medidas.

Para Andrea Costa Chaves, a megaoperação desta quinta-feira mostra que é preciso aumentar o controle sobre as movimentações destas empresas.

"O aprimoramento dela [da instrução normativa] incluía as fintechs. Ela foi alvo de muitas fake news e a consequência disso, com essa operação, fica claro. A gente acaba perdendo poder de fazer análise de risco para identificar com mais rapidez e eficiência esquemas como esse", disse.

Chaves afirmou também que, apesar de parte da megaoperação se concentrar em endereços na avenida Faria Lima, a maior parte dos fundos estabelecidos no mercado financeiro brasileiro seriam "legítimos".

"Na Faria Lima, tem fundos legítimos que não têm nenhuma ligação com isso. É o normal e é o que se espera. Mas dentro deste arcabouço, identificamos 40 fundos que, sim, estavam ligados e eram utilizados para a blindagem patrimonial do crime organizado", afirmou a subsecretária da Receita Federal.

Fonte: BBC Brasil


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

'Aristóteles não é simplesmente o filósofo mais importante, mas o ser humano mais importante que já viveu'

O filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.) foi um polímata cuja obra é considerado
um pilar fundamental da cultura ocidental - Imagem: reprodução

"Aristóteles não é simplesmente o filósofo antigo mais importante, nem simplesmente o filósofo mais importante de todos os tempos; Aristóteles é o ser humano mais importante que já viveu".

Essa afirmação foi feita pelo filósofo britânico John Sellars em um artigo na revista acadêmica Antigone pouco antes da publicação de seu livro, Aristóteles: Entendendo o Maior Filósofo do Mundo.

O título do livro, reflete a motivação de Sellars para escrever o livro: sua experiência como estudante de Filosofia mergulhando fundo na obra do pensador grego.

"Quando comecei, sabia muito bem que Aristóteles era uma figura importante, mas achei isso muito intimidador. Toda vez que eu tentava mergulhar em suas obras, quase imediatamente me perdia."

No entanto, ele perseverou e aprendeu que "você precisa saber lê-lo".

Como? "Lentamente", diz.

Seu livro é uma amostra que ele espera que incentive mais gente a conhecer os escritos do filósofo dos séculos IV e III a.C., sirva como um guia nesta jornada e nos ajude a descobrir como ele é brilhante.

E ele é, mas "o maior do mundo", "o maior de todos os tempos", "o ser humano mais importante"?...

"Esse é o meu ponto de vista, e sei que existem outros acadêmicos que o compartilhariam, nem todos, é claro, mas eu não sou o único que pensa assim", disse ele à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Sellars é um respeitado especialista em conhecimento, professor de Filosofia na Universidade Royal Holloway, em Londres, e autor de aclamadas palestras sobre estoicismo e epicurismo.

Mesmo assim, pedimos que ele nos convencesse da importância de Aristóteles.

Mas primeiro...

Relembrando brevemente

Aristóteles faz parte da tríade dourada da Filosofia clássica completada por Sócrates e Platão.

Ele era originário do norte da Grécia e, aos 18 anos, foi estudar na Academia de Platão em Atenas, onde, por duas décadas, foi aluno e depois colega do grande pensador.

Com o tempo, embora sempre tenha reconhecido o quanto devia ao professor, ele se distanciou de suas ideias e desenvolveu suas próprias opiniões.


"Platão é meu amigo, mas o mais amigo é a verdade", disse Aristóteles (em toga azul),
referindo-se ao seu mestre (em toga vermelha) - Imagem: reprodução

Após a morte de Platão, Aristóteles deixou Atenas e, depois de um tempo na Ásia Menor, mudou-se para a ilha grega de Lesbos, onde se dedicou ao estudo do mundo natural.

Anos depois, o rei Filipe da Macedônia o convidou de volta ao norte da Grécia para ensinar seu filho Alexandre, que mais tarde se tornaria conhecido como Alexandre, o Grande.

Quando Filipe foi assassinado enquanto Alexandre estava em sua grande campanha no Oriente Médio e na Índia, Aristóteles temeu por sua segurança e retornou a Atenas, onde fundou sua própria escola, o Liceu, aos 50 anos.

Ele morreu aos 62 anos, deixando para trás uma vasta biblioteca, incluindo seus próprios numerosos escritos.

De acordo com a Enciclopédia Britânica, as obras sobreviventes de Aristóteles, embora representem provavelmente apenas um quinto de sua produção total, somam cerca de um milhão de palavras.

Embora Sellars admita que dizer que Aristóteles é a pessoa mais importante de todas seja uma afirmação aparentemente "exagerada, tão grandiloquente que parece uma hipérbole afetada", ele tem argumentos para isso.

"Acho que ele é o maior em termos da escala de sua influência e do impacto que teve."

"Ele contribuiu tanto para tantas coisas que ainda são relevantes hoje em dia que nem percebemos que elas estão conectadas a ele."

Com água até os joelhos

Aristóteles não era apenas o protótipo de um filósofo sentado em uma academia ou palácio na Grécia Antiga, meditando com o olhar perdido à distância.

Como seu objeto de estudo era o mundo ao seu redor, ele também costumava fazer trabalho de campo, diz Sellars.


Aristóteles retratado no século XIII - imagem: reprodução

Quando ele partia para estudar a vida natural, ele "ia às praias e, com as águas até os joelhos, observava os animais, pegava insetos, peixes, caranguejos e polvos e depois os examinava".

"Até então, ninguém havia tentado estudar sistematicamente os seres vivos."

Assim, ele criou a disciplina de biologia.

Mas cuidado, isso não significa que suas conclusões estavam corretas. Na verdade, a maior parte do conhecimento que obteve nesse campo está obsoleto.

No entanto, o fato de ele ter sido provado errado em algumas observações não desvaloriza seu trabalho, porque no cerne de seu pensamento está que a evidência triunfa sobre a teoria.

"Toda teoria está aberta à refutação por meio de observações subsequentes, disse Aristóteles mais de uma vez", enfatiza Sellars.

O que também é excepcional é a maneira pela qual ele buscou o conhecimento, que "lançou as bases da ciência empírica".

"Refletindo sobre a natureza da ciência, ele criou um método para o pensamento científico, que foi outro avanço muito importante."

E enquanto "estava tentando entender como os seres vivos funcionavam, ele desenvolveu uma abordagem que depois aplicou a outros campos."

Outras águas

Por exemplo, Aristóteles adotou sua metodologia de conhecimento em seus estudos de política.

Para entender e escrever sobre isso, precisava de amostras, então "ele coletou cópias de todas as constituições que regiam as diferentes cidades do antigo mundo mediterrâneo", diz Sellars.

Isso permitiu que ele comparasse e analisasse as diferentes cidades e comunidades.

Assim como os animais, os diferentes tipos de governos poderiam ser classificados — monarquias, oligarquias, democracias — e, com base em informações históricas, ter uma ideia de quais floresceram.

Foi uma abordagem bem científica que marcou o início das ciências sociais.

"A política pode ser um assunto acalorado, e as pessoas têm opiniões fortes."

"A ideia de tentar dar um passo atrás e adotar essa abordagem mais científica, coletando informações antes de fazer um julgamento, é uma forma muito madura de se pensar sobre política que ainda não aprendemos totalmente", diz o autor..


Ao contrário da Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles realizava muitas palestras
abertas ao público em geral e gratuitas - Imagem: reprodução

Ele fez a mesma coisa quando explorou a literatura em sua obra poética.

"Para entender o drama grego, de uma forma muito científica, ele o desmontou e pensou em todos os diferentes elementos que contribuem para seu sucesso", Sellars explica.

"Ele analisou o enredo, os personagens, a encenação — tudo o que é importante."

"E, embora pareça muito óbvio agora, ele ressaltou que você precisa de um começo que dê ao público uma ideia de qual é a situação, depois a ação principal e, finalmente, uma resolução que não deixe pontas soltas, para que seja satisfatória para o público e eles possam sair com uma sensação de satisfação."

Assim, ele estabeleceu os elementos básicos de uma boa história, com uma análise que ainda é usada hoje e que também deu origem à crítica literária.

Como se isso não bastasse

Assim, resume Sellars, Aristóteles foi "a primeira pessoa a estudar sistematicamente a política e a pensar a literatura e a ciência dessa maneira, e ele inventou a lógica formal, o que é uma grande conquista por si só".

A lógica também?

"Ele foi o primeiro a estudar as estruturas do pensamento racional e, com isso, inventou a lógica formal e articulou claramente pela primeira vez os principais princípios lógicos, como a Lei do Meio Excluído: qualquer proposição só pode ser verdadeira ou falsa."

"Essa divisão binária é a ideia fundamental subjacente ao mundo digital."

Além disso, "Ética a Nicômaco, de Aristóteles, foi provavelmente o livro de ética mais influente de todos os tempos", diz Sellars.

Por quê?


O sistema filosófico e científico de Aristóteles se tornou a estrutura e o veículo
tanto da escolástica cristã quanto da Filosofia islâmica medieval - Imagem: reprodução

"Por causa da riqueza e complexidade da resposta que ele dá. Ele não simplifica. E ele reconhece todas as dificuldades reais de tentar viver uma vida humana."

"Ele também traz seu espírito científico para o assunto".

"Temos que pensar primeiro sobre o que é um ser humano e quais são suas capacidades e habilidades, e depois sobre o que significaria ser um bom ser humano que usasse essas capacidades e habilidades da melhor maneira possível."

Aristóteles acreditava que, além de crescer, se mover e se reproduzir, como outros seres vivos, nossa capacidade distinta é raciocinar: a grande maioria dos seres humanos adultos são pensantes... potencialmente.

"Para citar um exemplo que ele gostou, os olhos servem para ver; essa é a função deles. Se alguém tem olhos, mas nunca os abre, eles não seriam olhos no sentido mais pleno", ilustra Sellars.

Na mesma linha, "só somos seres verdadeiramente pensantes quando realmente pensamos".

Ao fazer isso, exercitamos o fato de sermos humanos. E o que é um bom ser humano, então?

Social, curioso e racional

É aquele que usa bem a razão, diz Sellars, acrescentando que "uma maneira de usarmos a razão é controlando os desejos e emoções irracionais que temos, impedindo que eles nos dominem."

"Ou seja, se um ser humano adulto ainda é excessivamente emotivo — fazendo birras quando não consegue o que quer e se comporta como uma criança — poderia-se dizer que ele nunca cresceu de verdade, que nunca se tornou adulto de verdade, certo?"

"Aristóteles também insiste que somos seres sociais e é por isso que temos que nos dar bem com outras pessoas. Isso é absolutamente fundamental."

"Outra coisa é que ele acha que, por natureza, somos curiosos, queremos conhecer e aprender, e que esse é um instinto humano natural."

"Se quisermos florescer e viver uma vida boa, devemos ser sociais, curiosos e racionais", diz Sellars.

Os conceitos de Aristóteles continuam enraizados porque "ele moldou a maneira como pensamos."

"Suas ideias e conceitos permearam nossa maneira natural de pensar a ponto de se tornarem imperceptíveis."

O que você acha... o argumento de Sellars te convenceu?


Fonte: BBC Brasil

sábado, 28 de setembro de 2024

Hildegarda de Bingen, a santa que descreveu o orgasmo feminino pela 1ª vez e 'inventou' fórmula da cerveja

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Platão disse que quem inventou a cerveja era um homem sábio. Ele estava errado. Na verdade, foi uma mulher. Uma pessoa sábia, sim, mas uma mulher.

As mulheres não são apenas responsáveis pela descoberta, mas suas contribuições ao longo da história da cerveja foram cruciais para o desenvolvimento da bebida, e para a construção da concepção cultural do uso que fazemos dela hoje.

O livro The Philosophy of Beer (A filosofia da cerveja, em tradução livre) oferece uma história interessante de uma das bebidas mais consumidas no mundo, cuja produção remonta milhares de anos atrás. Mas que começou a passar por um processo de popularização mundial a partir do fim da Idade Média, quando era produzida em mosteiros europeus e transportada por navios que buscavam novos horizontes comerciais.

Mas qual é, de fato, a origem, da cerveja?

Há pouco mais de 7.000 anos, a fabricação de cerveja começou a se desenvolver na Mesopotâmia; eram as mulheres que misturavam grãos de cereais com água e ervas para fazer uma bebida com fins nutricionais.

Elas cozinhavam a mistura e, dessa mistura intuitiva, para aplacar a fome, surgia um caldo que fermentava espontaneamente.

Logo começaram a desenvolver suas habilidades em torno desse líquido turvo, espesso, mas altamente nutritivo, que também era capaz de iluminar o espírito.

Desde então e por centenas de anos, seu grau de conhecimento fez com que as mulheres fossem as únicas que podiam produzi-lo e também comercializá-lo. Elas eram responsáveis por sua produção e comercialização. Elas ainda eram responsáveis e as licenças e os equipamentos para produzi-lo eram delas.

E assim foi até a Idade Média, quando na Europa as licenças passaram para os nomes dos maridos.

A mudança legal da licença pode ter tido a ver com o fato de que, naquela época, a cerveja era um bem muito precioso e, embora fosse fabricada para consumo doméstico, o excedente era vendido para obter uma renda familiar extra. Assim, elas continuaram a trabalhar, mas o produto não era mais delas. E nem o dinheiro que ele rendia.

A versão mais difundida da origem da cerveja atual afirma que ela foi inventada por monges. No entanto, quando os monges viram o potencial do que as famílias e, em especial, as mulheres, já estavam fazendo, decidiram investir no cultivo de cereais para criar novas misturas e comercializá-las.


A versão mais difundida da origem da cerveja atual afirma que ela foi inventada por monges
 - Imagem: reprodução

Lúpulo e Hildegarda de Bingen

Entretanto, apesar desse monopólio clerical, a cerveja como a conhecemos hoje também foi inventada por uma mulher.

Foi na Idade Média que a fabricação de cerveja sofreu uma mudança substancial com a adição do lúpulo, um parente próximo da cannabis, cujas flores dão à bebida seu amargor característico e propriedades conservantes que permitem que ela seja armazenada por muito mais tempo.

A abadessa Hildegarda de Bingen (1098-1179), a versão feminina de Leonardo da Vinci, foi responsável pela descoberta que provocou essa mudança radical na fabricação de cerveja.

Essa boa mulher, que combinou sua função de mestre cervejeira com a de teóloga, escritora, compositora musical e botânica (em sua obra Physica, ela descreveu mais de 200 plantas), entre outras habilidades, acabou sendo canonizada pela Igreja Católica. Embora isso tenha levado doze séculos.

Em 2011, o Papa Bento 16 acrescentou Hildegarda ao catálogo de santos católicos, e um ano depois a nomeou “quarta Doutora da Igreja Católica”, depois de Santa Teresa, Santa Catarina e Santa Teresa de Lisieux.

Uma santa que descreveu o orgasmo

Além de sua notável contribuição para a cerveja, essa freira de clausura nos legou também uma outra “descoberta” prazerosa: a primeira descrição escrita conhecida de um orgasmo feminino.

Ao contrário de escritores da época, como seu contemporâneo Constantino, o Africano, que em seu Liber de coitu descreveu todos os tipos de prazeres carnais sem mencionar as mulheres, Hildegarda foi a primeira a ousar afirmar que o prazer não era obra de Satanás, que residia no cérebro e que as mulheres também o sentiam.

No Book of Causes and Remedies of Diseases, a carismática abadessa de Binguen escreveu que o sexo não era fruto do pecado e que o prazer sexual era uma questão de dois, e descreveu o momento do clímax e da ejaculação de um casal em termos inequívocos:

Assim que a tempestade da paixão surge em um homem, ele é lançado nela como uma pedra de moinho. Seus órgãos sexuais são então, por assim dizer, a forja à qual a medula dá seu fogo. Essa forja, então, transmite o fogo para os órgãos genitais masculinos e os faz queimar poderosamente.

E sua parceira está longe de ser um recipiente insensível:

Quando a mulher se une ao homem, o calor do cérebro da mulher, que tem prazer nele, faz com que ele sinta o prazer da união e ejacule seu sêmen. E quando o sêmen cai em seu lugar, esse calor muito forte do cérebro o atrai e o retém consigo mesmo, e imediatamente o rim da mulher se contrai e fecha todos os membros que, durante a menstruação, estão prontos para se abrir, assim como um homem forte segura uma coisa em sua mão.

Esse tratado médico foi publicado há doze séculos. A verdade é que, somente por isso, ela merecia ser uma santa.

*Manuel Peinado Lorca é professor emérito de Ciências da Vida e diretor do Jardim Botânico Real da Universidade de Alcalá (Espanha)

**Este artigo foi publicado no site The Conversation e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons. Clique aqui para ler a versão original.

Fonte: BBC Brasil